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Coisas
do Cotidiano. Textos com um tanto de humor e ironia, sobre as coisas do
cotidiano.
Os
Turistas de Nossas Vidas
-
Jacqueline
Collodo Gomes
Os
turistas de nossas vidas... Sabe, aquelas pessoas que não acompanham
a nossa vida, não tem interesse em saber como as coisas estão,
em como estamos e temos nos sentido, reagido, pensado, e digerido as coisas
do cotidiano, se estamos sofrendo ou o quê for, mas, que quando
nos vêem, vão logo botando o dedão com aquela cara
de esperteza, como quem tem o direito de tentar endireitar a vida alheia:
"Ah, isto é porque você precisa fazer aquilo"...
ou "Ah, mas também, você faz isso"... Aff! Dá
nos nervos estes turistas de nossas vidas, que vão passando assim
pela gente, como que flutuando, e ainda querem falar, opinar e "resolver"
assuntos, de qual nem estão inteirados, e acabam por só
falar borracha.
Mas, talvez mais do que irritante... É triste viver assim, vendo
as pessoas passarem como turistas por nós, e nunca realmente querendo
criar raízes, tendo o interesse de serem parte do que somos e da
nossa história... De pôr o braço abaixo dos nossos,
e nos erguer, e fazer sorrir. Para estes turistas se estamos com algum
problema é porque causamos aquilo, gastamos demais, ou simplesmente
estamos desocupados demais, porque, sim, para alguns destes turistas,
ou acho que para todos mesmo, certos problemas ocorrem a "desocupados"
na vida - não, eles não vêem nada do que fazemos,
e acham que na verdade não fazemos nada porque não nos ligam
quando realmente estamos cumprindo com nossos afazeres, que é só
o quê, quase 23 hs do dia, maaaasss bem naquela horinha que tiramos
para sentar e respirar um pouco, ou em que decidimos passear depois de
tanta semana trancafiados às nossas rotinas. Sim, para estes turistas
vivemos de shopping, de ver televisão, e dormir. E, por tanto,
não temos direito de reclamar de nenhum problema, que aliás,
nós causamos, porque somos muito desocupados, pois, como eu já
disse, para eles existem problemas que só se ocasionam aos desocupados
da vida, que na visão deles é o nosso caso.
Eu me lembro de quantas vezes trabalhei até de madrugada, até
três, quatro da manhã, ou mesmo virei o dia em frente ao
pc, cansada, exausta, lutando com o sono para terminar o meu trabalho,
e tive de ouvir que levava uma vida muito boa por estar dormindo até
as duas da tarde. É tão ridículo pensar que se pode
falar assim com as pessoas. É patético. É triste.
Porque esta pessoa com certeza dormiu a noite inteira, enquanto eu estava
trabalhando, mas eu não a julguei por não levantar e trabalhar
ao meu lado num trabalho que é totalmente filantrópico.
Porque, o quê, ela só vive mesmo para ela, não é...
Levanta e trabalha para o seu próprio consumo, mas eu não
a julgo por isso. Mas a estes turistas não interessa nada. Eu acho
mesmo que eles não percebem a ninguém, acham que o mundo
só existe para eles, e que tudo funciona apenas para servi-los.
É triste. É... Mas é mais triste para eles. Por quê?
Porque não criam raízes, não com o que realmente
importa, e acabam vivendo feito portas, abrem e fecham, trancam, mas são
ocos, vazios, não sentem nada, e vivem mesmo todo esticadões
como portas.
É triste ver como nem mesmo tendo a palavra "família"
no meio faz as pessoas quererem deixar de ser turistas das vidas alheias.
É triste ver como abandonam a essência para serem vazios
e calculistas, terem forma de porta. É triste ver quanta coisa
deixa de ser por conta disto.
Num mundo em que as pessoas correm tanto em volta de si mesmas, para ter
tão somente a tal forma de porta, e querer deslizar como prancha
sobre os sentimentos alheios e um baú de valores preciosos que
ainda existe, tem quem escolha ter forma de coração. Pelo
menos!
20/01/2011,
19:00hs.
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