Um
pedido de Natal - Jacqueline Collodo Gomes
Luíza
olhava fixamente para a foto que segurava entre seus dedinhos
curtinhos de criança. Que saudade sentia da mãe!
A lembrança do último abraço que lhe
dera era tão forte que bastava fechar os olhos para
sentir novamente os braços da mãe envoltos
nela.
Não passava um dia sem que sonhasse com a mãe,
e que não corresse atrás da avó com
uma porção de perguntas sobre seu regresso.
No começo do ano foi que partira, para trabalhar
no Rio de Janeiro. O emprego favorecia a situação
difícil em que a família se encontrava. Mas
a despedida que se sucedeu quase a fizera desistir de tudo.
Luíza era muito pequena, precisava da mãe,
e não podia entender a necessidade de sua viagem.
Chorara muito, sofrera, mas exatamente por pensar
no bem da filha é que a mãe conseguira disfarçar
o desespero e a vontade de ficar para enfim partir.
Tudo isso rondava a cabecinha de Luíza enquanto olhava
para aquela foto, sentada num banquinho no quintal da casa
da avó, com quem morava.
A avó passou por ela trazendo uma muda de roupas
para estender no varal. Sentiu-se tocada pela cena. Sabia
o quanto Luíza sentia falta da mãe. Fez-lhe
um cafuné, e seguiu adiante.
- Vovó, a mamãe virá para o Natal?
A mulher enxugou as mãos no avental, e engoliu a
angústia. Fazia semanas que a filha não lhe
dava notícias.
- Vou tirar as bolinhas vermelhas do armário porque
mamãe gosta de enfeitar a árvore com elas.
O coração da avó estava penalizado!
Segurando as lágrimas, ela se aproximou da neta e
beijou-lhe a testa.
- Luíza, lembra que eu te disse para orar a Deus
por tudo o que você precisar?
- Sim, vovó.
- Então. Ore a Deus para que a mamãe chegue
até o Natal.
Uma esperança brotou nos olhinhos inocentes daquele
anjinho, que abraçou apertado a avó, agradecendo-lhe
por aquela brilhante idéia.
E todos os dias, antes de dormir, Luíza sentava em
sua cama olhando para o céu pela janela do quarto
e dizia:
- Meu Papai do céu, eu e a vovó estamos muito
tristes sem a mamãe por aqui. A vovó chora
às vezes e eu escuto, mas eu também choro
de saudade da mamãe! Por favor, traz a mamãe
pra casa pra ela parar de dar saudade na gente. Amém!
Ah, aqui é a Luíza que tá falando.
A vovó disse que o Senhor conhece todo mundo, mas
eu achei melhor avisar.
Os dias foram se estendendo, até o chegado dia 20.
Luíza estava muito contente diante da proximidade
do Natal. O que mais a deixava animada era a esperança
de reencontrar a mãe. Já havia espalhado pela
vizinhança que a mãe estaria em casa para
as festas de fim de ano. Tinha a certeza em seu interior
que Deus já tinha providenciado tudo, e agora ela
apenas reunia as energias para agarrar-se à mãe
quando chegasse, e enchê-la de beijos.
Mas a avó estava preocupada com o comportamento da
neta. Não sabia o que dizer aos vizinhos quando a
questionavam sobre a volta da filha para as comemorações
em família. Sentia-se culpada por iludir a criança,
mesmo que a circunstância não lhe desse mais
alternativas.
Já era dia 20, e nenhuma notícia da mãe
de Luíza! Como contar à menina que sua mãe
não voltaria para o Natal? Não podia destruir
a fé de uma criatura tão ingênua e pura!
Luíza dormia, e sua avó a observava angustiada.
Nesse instante, o telefone tocou. A mulher estremeceu de
alegria ao ouvir a voz do outro lado:
- Mãe, diga à Luíza que eu volto para
casa amanhã!
A notícia foi recebida com muita euforia pela menina,
que se pôs a pular e rir de alegria. A avó
vibrava junto, surpresa e emocionada diante da fé
gigantesca da criança.
Naquela noite, Luíza mal conseguira dormir. Dali
a algumas horas ela estaria de novo nos braços da
mãe! Apenas ficou repetindo, com muita alegria: “Obrigada
meu Deus!”, até que adormeceu.
Poucas horas antes da chegada da mãe, Luíza
já estava arrumada. Sentada no sofá fitava
a porta da entrada quase sem piscar. Balançava os
pés sentindo uma coisa estranha que nem imaginava
ser ansiedade. A avó a assistia da cozinha e sorria.
- É no ônibus das dez horas que a mamãe
chega. – Luíza lembrou a si mesma.
Um alvoroço na rua chamou a atenção
de ambas. A avó saiu para ver o que estava acontecendo
e Luiza a seguiu.
Os vizinhos olhavam-nas pesarosos. Alguns desatavam a chorar,
murmurando coisas do tipo “Que tragédia!”,
“O que será desta menina agora?”.
A avó percebeu que o que tinha acontecido as envolvia.
Sentiu o coração apertar ao ver uma amiga
se aproximando em prantos, pedindo que tivesse calma para
lhe escutar.
- Você assistiu o noticiário hoje?
- Não. O que está havendo? – perguntou
aflita.
- O ônibus em que chegaria a mãe de Luíza
derrapou na serra.
Pelo olhar que a amiga lançara ao dizer a última
frase, ela pôde entender. Não ouviu mais nada.
Tudo girou por alguns segundos. Foi amparada por quem estava
perto. Viu o céu clareando novamente diante dos olhos.
Encarou a multidão de pessoas ao seu redor enquanto
se recompunha, e avistou a neta, que estava assustada, mas
não entendia o que estava acontecendo. Tinha de ser
forte por Luíza! Como lhe contar? Como lhe explicar
esta tragédia? Que dor terrível lhe era frustrar
os sonhos da criança! Mas tinha que lhe dizer! Seria
pior mentir.
Tomou-a pelas mãos, e sentou-se à sua frente
na sarjeta da calçada. Toda a vizinhança em
volta chorava. Luíza estava muito assustava por ver
a reação das pessoas, e a cara triste que
a avó estava fazendo.
- Vovó, o que foi? – perguntou com medo.
- Luíza... – começou a avó, tentando
não chorar.
- Não chore, vovó! A mamãe já
está chegando! – disse a menina, buscando consolá-la.
O desespero das pessoas se multiplicava diante da cena.
A menina ainda esperava pela mãe; ainda tinha viva
toda a esperança que pudesse caber no seu pequenino
coração!
- Luíza... – a avó tentou pela segunda
vez.
- Vovó, tá tudo bem! Lembra que você
me ensinou que devemos acreditar mesmo que ninguém
acredite? Deus vai trazer a mamãe!
Neste momento, um táxi estacionou na esquina. Mas
estavam todos ocupados com seu desespero e incredulidade,
e não perceberam.
Luíza escutou alguém correndo ladeira acima
e olhou para o lado. Só foi o tempo da mãe
pegá-la nos braços e levantá-lo no
ar, chorando de alegria.
- Mamãe! – gritou com felicidade.
A avó levantou-se depressa e uniu-se a elas num gostoso
abraço. Choraram de alívio. Choraram pela
emoção do reencontro.
As pessoas em volta estavam boquiabertas. Tanto já
tinham previsto o pior que muitas demonstravam despeito
em comemorar o final feliz.
- Vi todas essas pessoas aqui na frente de casa, e senti
um medo terrível de que algo tivesse acontecido a
vocês. – disse a mãe de Luiza. –
Larguei as malas pela rua e corri.
A avó olhava para Luíza com uma profunda admiração.
Ela não duvidara nenhum minuto! E o milagre acontecera.
O milagre de uma fé genuína!
- Filha, quando me contaram que o ônibus em que você
chegaria derrapou na serra, eu fiquei desesperada!
- Não sei explicar mãe, mas algo me incomodou
para fazer as malas e partir no primeiro ônibus. Era
uma sensação tão forte que eu não
pude ignorar. E que bom que não o fiz! – concluiu,
dando um beijo na bochecha de Luíza.
- Eu sabia que você estava chegando, mamãe,
porque eu pedi a Deus e senti que Ele me atendeu! Então
eu me adiantei e tirei as bolinhas vermelhas do armário.
Vamos montar a árvore agora?
A mãe apertou-a junto de si com amor, e respondeu:
- Vamos sim, minha pequena missionária!
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